NIRANAÊ, SAGA TUCUJU

NIRANAÊ, SAGA TUCUJU
De Edgar Rodrigues

1.5.09

Prefácio



Bellarmino Paraense de Barros

Tive oportunidade de ler a primeira edição da obra do escritor e jornalista Edgar Rodrigues: NIRANAÊ, na qual este jovem talentoso dá um passeio pelo maravilhoso mundo colonial dos bravos índios das terras do setentrião brasileiro. O romance de Edgar traz o perfume delicioso emanado das entranhas misteriosas de nossas florestas, onde os rios e paranás são uma presença permanente, ávidos para receber o beijo cálido de suas espécies ciliares em cuja sombra a boiúna, na imaginação dos ribeirinhos, assusta o ambiente.

Já conheço o escritor através de seus artigos semanais, publicados nos jornais de Macapá. O historiador tem, em seu acervo, cerca de 40 mil informações indexadas sobre o Amapá, além do acervo fotográfico constituído de quase duas mil fotos, retratando a cidade antiga de Macapá desde 1907, quando as ruas eram iluminadas por candeeiros.

Escrever, penso eu, é permitir a manifestação da alma em seus lampejos de paixão ou de cumplicidade com o mundo material que ele vislumbra, que faria de nós, mortais, meros mensageiros ou, então, é o modo de dialogar com os elementos da poesia.

Nos tempos idos trilhavam pelos caminhos maravilhosos das letras do nosso Amapá, almas como Álvaro da Cunha, Ivo Torres, Waldemiro Gomes e Alcy Araújo, entre outros. Muitas construções literárias foram por eles concebidas que embalaram os devaneios dos pobres morais, venturosos pelo desfrute das pérolas que eram derramadas em revistas por eles e editadas em Macapá, como Latitude Zero e Revista Rumo.

Outros obreiros que carregaram para o deleite das nossas mentes foram Arthur Nery Marinho, cujos versos tímidos ocupavam uma estreita superfície, conde pontuavam os pioneiros do nosso Amapá. Luís Gonzaga Pereira de Souza produziu uma obra calcada em temas espíritas, onde ele buscava inspiração e sabedoria.

O Hélio Pennafort editou obras inspiradas nos fenômenos das forças do Cassiporé, e dos mistérios da pororoca. A professora Aracy Mont’alverne, sempre sintonizada com o mundo da poesia, atraia para sua mente, sonhos em forma de estrelas.

O Nilson Montoril é um talentoso historiador que foi alçado ao mundo dos amapaenses, por obra e graça do meu sempre saudoso amigo Francisco Torquato de Araújo, seu pai, e que por esse fato lhe deve uma dupla reverência.

Cordeiro Gomes, modesto vigiense que fez história nos desportos e nas letras, carece ser exaltado pela sua humildade e talento. Coaracy Barbosa, paciente e corajoso menestrel de preciosos trabalhos sobre os personagens ilustres do Amapá, impressionava pena tenacidade.

EDGAR RODRIGUES tem uma particularidade. Ele é filho de um grande amigo meu, o Raimundo Cardoso Rodrigues, mais conhecido por Badico, um grande artesão das jóias que o Amapá possuiu. Seu pai nasceu em Igarapé Açu, no Pará, onde corre o sangue nordestino, do sertão do Ceará (Uruburetama), de onde se originou seu avô Zacarias Rodrigues Teixeira. A mãe de EDGAR, Maria de Lourdes, foi uma verdadeira batalhadora, que conseguiu, junto com Badico, educar uma prole maravilhosa composta por Dinair, Edgar (o nosso historiador), Mair, Pedro, Ray, Aldemir, Suely... e o saudoso Claudemir, poeta de veia fértil que deixou este mundo prematuramente, em 1989, aos 21 anos.

Edgar teve experiência religiosa, convivendo inicialmente com os padres camilianos em Macapá (postulantado), e com os barnabitas em Belém (noviciado), ao longo de quase 10 anos, onde cursou Teologia no Seminário São Pio X (Ananindeua) e Filosofia na Universidade Federal do Pará. Após a experiência religiosa cristã, e provocado por questões de crises sentimentais, ele isola-se, a partir de 1986, num mosteiro Zen Budista, onde aprende e apreende, através de exercícios ascéticos, a arte da Meditação.

Em 1987 retorna a Macapá, e começa a reunir uma coletânea de informações sobre História do Amapá, colhidas nos arquivos do Pará, durante os anos em que esteve por lá. Em 1988 tem uma experiência de quase um mês com os índios Wajapi, no Amapari. Essas experiências, juntamente com os estudos antropológicos sobre os índios da Amazônia em geral, fizeram com que ele produzisse esta que, para mim, é sua obra-prima: Niranaê, na qual ele retrata quase um século de convivência entre os índios Tucuju e o europeu, corporificados nas personagens Niranaê e Mário Hernendez. Vale a pena ler a obra.

O intelectual é daqueles que fogem a qualquer classificação. É poeta? É cronista? É ficcionista? É historiador?. O que podemos assegurar, é que ele tem a facilidade e a maestria de pender para as várias tendências, se saindo muito bem nelas, muito embora já tenha deixado claro que este é o primeiro se seu último romance. A humildade o faz identificar-se simplesmente como jornalista. Mas ele é mais do que isso.

Bravos, mil vezes bravos a todos esses luminares das letras amapaenses. E a você, EDGAR RODRIGUES, que me entrega parte do cenário desta minha carência existencial das lindes do Amapá.
(Belarmino Paraense de Barros)

Nota: Este prefácio foi publicado no Jornal do Dia, de 20 de setembro de 1998, e não consta na primeira edição do livro, passando a figurar a partir da segunda edição.

Prólogo





Homem branco veio, e com tacape de pau fino que cospe fogo, e cipó teso de ponta afiada, desafiou as leis de Iratu. Pegou nossas cunhãs e cunhatãs, deu sua água remosa, invadindo nossas terras e contaminando nossas mulheres.

Homem branco expulsou parte de nossos guerreiros e raptou nossas mulheres. Falei para homem branco que estas terras são nossas, dádiva de Iratu, mas homem branco não quis saber. Pegou pau fino, furou olho meu, bateu em mim, matou minhas crianças, pegou minha mulher e a levou para longe do rio. Nunca mais eu vi mulher minha.

Não sei por que homem branco tem tanta maldade. Nós índios, guerreiros da floresta, queremos ser amigos. Eu vi Mário crescer com a sua pela da cor de Araci quando brilha de manhã. No momento em que a grande suçuarana ia dar o bote para pegar Mário, avisei Itanhaê que homem branco corria perigo. Depois de salvo pelo nosso grande feiticeiro, Mário se tornou um dos nossos. Mário homem branco, mas homem bom e sem maldades, diferente dos outros homens brancos. Todo homem branco deveria ser como Mário.

Mas a paz vai voltar à grande nação tucuju. É vontade dos povos da floresta. É vontade dos espíritos de nossos antepassados. É vontade de Iratu, a encarnação de Tupã na terra. Índio acredita. Índio espera isto. Índio confia.



(Ibanatu Tucuju, chefe indígena,
dezembro de 1636, na contagem do homem branco)

Capitulo 01




Foi na quarta lua do ano das grandes colheitas, que Itaraê saiu do ventre de Arati, saudando a aldeia com choro aberrador, e assustando logo sua mãe. Não chovia nem fazia sol quente, pois Coaracy prometeu não importunar o pequeno curumim recém-chegado do mundo.

Itaraê foi crescendo com o leite de Arati, cunhatã vigorosa e guerreira, conhecida pelo volume alto dos seus seios, com os quais amamentou uma dúzia de curumins. Itagibá, seu pai, grande feiticeiro da nação ticuju, está feliz pelo menino. De acordo com o vaticínio dos espíritos da floresta, Itaraê será o grande varão da terra. Itaraê será o continuador da história do povo tucuju.

Dizem as profecias da nação, que os homens brancos do Norte estavam prestes a ameaçar o sossego dos tucuju. Sentindo o perigo, o grande Iratu enviou Itaraê, para conduzir os guerreiros rumo à vitória. Mas essa missão de Itaraê exigia um sacrifício maior: uma filha que nascesse através dele, seria inteiramente dedicada à divindade. O pacto foi selado e o destino já estava sendo traçado. A pequena nação, através de seus xamás, já começou a sentir o perigo iminente.

Chegou o dia da primeira prova que Itaraê precisava passar. O guerreiro mais forte, Itagibá, seu pai e chefe da nação, pegou o pequeno guerreiro e fê-lo flutuar nas frias águas do Jarí. Às primeira horas, o varão reagiu bem. A boiúna, de longe, estava na espreita. Itaraê foi assim, suportando todas as provas vitais com o decorrer do tempo, e por isso mesmo foi-lhe dado o título de Varão da Terra.

Destro na caça e na pesca, Itaraê começou a ficar robusto, vencendo os festivais e competições da mocidade. Assim, o menino virou guerreiro de verdade, selvagem astuto, e bem reverente aos espíritos das florestas,e aos costumes da grande nação tucuju. Não importunava a grande sucuri, descendente da cobra grande. Entre as inúmeras crenças dos tucuju, havia essa da grande boiúna: todo índio tucuju que ousasse molestar uma sucuri e impedir o seu curso, tem como pena a de ser apanhado pela cobra, sem resistência, como alimento. E também um dia, é destino de todo guerreiro que, ao ser chamado por Iratu, entregar-se à cobra para que seja devorado, e seu espírito guerreira seja liberto de seu cárcere privado que é o corpo, para ir de encontro às águas plácidas do Grande Igarapé, onde uma índia virgem e vistosa lhe virá ao encontro, para reinicio da vida num lugar onde a caça é mais abundante, e os igarapés mais piscosos.

Também toda índia que um dia fosse chamada por Iratu, ela se transformaria numa belíssima guerreira virgem, e cada uma seria recepcionista de cada guerreiro que chegasse ao céu de Iratu. Aliás, essa divindade guardava uma índia para cada guerreiro, como premio por causa da vida dura que ambos tiveram, nas selvas terrestres.

Grande guerreiro e corajoso na arte de vencer o inimigo, Itaraê é nomeado, após dezenas de festivais de lutas, o chefe da nação tucuju. Proclamado cacique titular, com plenos poderes para administrar todas as tribos tucuju, ele recebeu do pai, a esse momento cego e muito avançado na velhice, esta missão. Ele estava consciente da responsabilidade que acabava de assumir.

A preocupação maior era com as profecias de seus ancestrais, sobre a vinda de guerreiros do Norte, vestidos de indumentária diferente, botas de cano longo, portando paus que cospem fogo e vagas finas que brilhavam ao contato do sol. Segundo os feiticeiros das tribos tucuju, esse inimigo já não estava muito longe. Era necessária muita sabedoria e astúcia guerreira para espulsá-lo.

Após ter desposado Itanubá, uma jovem índia, Iraraê sentiu-se um índio mais completo. A caça e a pesca na região eram abundantes, e tinha para todos. O que Iratu proibia era o exagero. Segundo as leis das tribos, cada chefe de família só podia caçar um quadrúpede macho. As fêmeas eram proibidas, porque poderiam estar carregando filhotes no ventre.

Passaram-se muitas luas, depois do casamento de Itaraê. Satisfeito com Itanubá, ele fazia de tudo para não transbordar a sua preocupação com outras mulheres da tribo. Por instantes ele se fazia forte, mas logo se perdia nos seus pensamentos, preocupado com o destino de seu povo. As profecias dos mestres de tenda eram bem mais predominantes em seu pensamento.

– Itanubá preocupada – falou sua mulher, quebrando o silêncio.

– Por que Itanubá preocupada? – retalhou Itaraê, voltando os olhos à sua índia.

– Praga de Jurupari faz Itaraê triste. Isto preocupa Itanubá.

– Por que? – insistiu o guerreiro.

– Iratu visitou Itanubá em sonhos, e mandou recado de Tupã. Iratu aproveitou para revelar uns acontecimento que irão fazer Itaraê ficar mais preocupado. – revelou a índia.

Desta vez, o cacique ficou mais curioso e intrigado com a conversa da mulher.

-- O que te revelou ele?

– Revelou notícias destino nosso povo.

– Já sei. Itaraê vai receber aviso de espírito da floresta, do inimigo que está próximo, não é? Mas avisa logo para ele, se ele aparecer de novo nos teus sonhos, que Itaraê está cansado de esperar luta. – desabafou o guerreiro.

– Itaraê lutar não é, por enquanto, desejo do Grande chefe – advertiu Itanubá, deixando o guerreiro mais aflito ainda.

– Qual é então o desejo do Grande Chefe? Fala logo, mulher. Você está me deixando preocupado!

– Desejo do Grande Chefe é que Itaraê tenha uma cunhã de meu ventre. E o desejo já está sendo cumprido.

Capitulo 02




Finalmente, após algumas luas, vem a cunhã ao mundo. Recebida pelo cacique Itaraê, a primeira filha passa a se chamar, por seu pai, Niranaê, por orientação do feiticeiro Itanhaê. Toda a nação tucuju paralisou seus afazeres por alguns instantes, na saudação ao novo ser, dádiva de Iratu. Todo contente, o jovem Itaraê empunhou o arco e a flecha; e com todas as suas forças, arremessou a flecha ao longe, cortando os céus. Em seguida, bradou o nome de Iratu nesses versos que se seguem:


Iratu, jovem guerreiro,
Valente de todos os valentes,
Varão maior das terras celestiais
Em meus braços está a tua dádiva...
Ela se chamará Niranaê,
Que na nossa fala significa
“Mãe da Grande Nação”

Ela se fará cunhã, e produzirá os varões mais valentes
Para alegria da nação tucuju
Os homens do Norte jamais tocarão sua face
De seus lábios jamais será produzido um nome vulgar...

Dádiva de Tupã, presente a Iratu, Niranaê será o inicio
De nossa resistência
Frente aos inimigos do Norte...


Mesmo instante, viu-se um enorme rugido no céu. Coracy desapareceu e a chuva veio copiosa. Todos os índios receberam a chuva da bênção. Mas não foi por muito tempo. O cacique percebeu que o feiticeiro itanhaê estava perturbado, como que recebendo uma mensagem dos espíritos da floresta. Após alguns instantes de transe, que ninguém ousou quebrar, o cacique perguntou, curioso, ao pajé:


-- Estavas a falar com quem?
-- Recebi aviso dos espíritos da floresta.

De inopino, Itanhaê silenciou. Em seguida puxou sua piteira de turé, tragou a fumaça do amotacuã, soltou-a em três longas baforadas. Depois olhou firmemente para Itaraê. Todo o corpo do velho feiticeiro brilhava, irradiando uma luz diferente. Após o envoltório da fumaça de seu cachimbo desaparecer, ele olha para Itaraê e vaticina:

-- Espíritos da floresta dizem que Iratu recebeu tua mensagem. Ele manda dizer que gostou das palavras, mas avisa que futuro da menina pertence a Ele, e não a ti. Estais a adivinhar um futuro para alguém que não te pertence. Estais a adivinhar sem ser pajé. Por isso, Iratu está triste.

-- Como assim? – perguntou, preocupado, Itaraê, ao “filósofo” da tribo.

-- Antes que tenhas algum plano para tua filha, Iratu tem os dele. Há muitas luas, antes que ela chegasse com vida à tribo feito cunha, Jurupari já estava de olho, mas é claro que menina Niranaê não pode ser de Jurupari.

-- mas ela não será de Jurupari. Eu nunca disse que ela pertenceria a Jurupari. Que idéia mais complicada a sua! – retalhou o cacique, frente às declarações do feiticeiro.

-- Menina Niranaê não será de Jurupari. Menina Niranaê não é totalmente sua. Menina Niranaê não será de homem algum. Ela é dádiva de Tupã para Iratu. Enquanto ela viver, a aldeia será envolvida por um clima de paz: haverá muita caça, e índios serão felizes.

-- Mas... e o destino de nossa nação? E o futuro de meus descendentes? Quem me substituirá? – perguntou, intrigado, Itaraê.

--Você está mais preocupado com você do que outra coisa. Deixa o destino nas mãos de Iratu. A felicidade e a paz da nação tucuju dependem muito da virgindade de Niranaê. Niranaê não é sua, ela é filha de Tupã, que deu de presente para Iratu. Por isso mesmo, é que não pode ser tocada por nenhum guerreiro. E castigo de Iratu para quem desobedece é forte e certeiro, principalmente para quem mexe com suas mulheres.

Itaraê ficou um pouco decepcionado e triste com as palavras do feiticeiro. Recolheu-se em sua rede, e ficou pitando a noite inteira. Itanubá resolveu não importunar o marido. De vez em quando ela levava um pouco de bebida aromatizada de epadur, para abrir um pouco a cabeça, e ajudar a atenuar as preocupações.

Muitas visões foram aparecendo na mente de Itaraê. Fomas disformes, rostos diferentes. Anhangá tentou perturbar seu sono, e ele foi interrompido, várias vezes, por imagens deformadas e variadas. Os pesadelos foram interrompidos, de repente, pelo choro da criança. Itanuba começou a cantar perto da menina, mas a pequena Niranaê chorava muito alto ainda. Itaraê fitou a face da bebê, que de repente calou-se, substituindo o choro por um leve sorriso. O velho guerreiro, acostumado com as durezas da vida,sorriu também como uma criança.

A emoção tomou conta do ambiente. Um acalanto foi logo saindo dos lábios de Itaraê, que começou a cantar canções de carinho:

Acutipuru empresta teu sono
A esta menina que não quer dormir.
Empresta teu sono para que
Esta menina possa dormir.

Já era madrugada, e Itaraê, após fazer a filha dormir (e isto era raro na vida dos índios, porque era tarefa da mãe fazer qualquer curumim ou cunha dormirem). Pediu a Itanubá que fosse descansar. A jovem índia queria um pouco de carinho, ou ficar perto de Niranaê, mas resolveu obedecer ao marido. Entrou, em seguida, para um cubículo onde passou uma lua inteira, mas teria que passar mais outra lua, longe de todos. É costume da mãe tucuju durante o período de gestação. Era uma maneira de purificação do corpo, que acabou de colocar no mundo uma vida. E este ritual era obedecido sem relutâncias.

O resto da noite teve a presença de Itaraê contemplando a filha dormindo. Agora Itaraê é outra pessoa, e a felicidade tomou conta de seu mundo. A musicalidade dos ruídos da floresta já estava a anunciar a presença de Coaracy. E o silêncio foi quebrado pelo feiticeiro Itanhaê, que pegou a menina nos braços do pai, para que, na manhã seguinte, fossem efetuadas as primeiras provas de iniciação, a fim de poder testificar a capacidade de sobrevivência.

Pela manhã, Itanhaê evocou os espíritos da floresta para que presenciassem as provas pelas quais a nova índia teria que se submeter, a fim de ser admitida entre os seus irmãos de tribo. A menina despertou, no seu grande dia, com a fria água do igarapé, que a cobriu toda, sobrando apenas a cabecinha para respirar. Itanhaê a segurou por longas horas. Ela começou a soltar gemidos, tremendo-se toda durante a sessão. O velho feiticeiro mergulhou-a três vezes, aspirou em suas narinas e soltou fumaça de sua piteira em todo o seu corpinho, vindas de ervas aromáticas e sagradas.

Uma cunhatã e uma cunhã começaram a se revezar para segurar a criança. Foram mais ou menos três horas, na contagem do homem branco. Seu corpinho, de frio, começou a ser queimado pelo calor do sol que castigava o rio Jarí.

-- Ela sobreviverá. Por isso mesmo, é digna de ficar com a gente. Que Iratu a abençoe, e que ela traga muita paz para nossa gente --- palavras do sábio da tribo.

Ao cair da noite, foi realizada a primeira festa do Turé para Niranaê, que perdurou por três dias e três noites. Por conta do cacique, foram servidos caxiri e beiju, e caça à vontade.

Capitulo 03


Ano de 1500, na contagem do homem branco. O espírito aventureiro das grandes navegações assolava o planeta. Navegadores de todas as procedências, “aos auspícios de Suas Majestades”, se enfileiravam na grande odisséia dos descobrimentos marítimos, como Vicente Pinzón, que partindo de Castela, no comando de uma expedição, traz com ele Mário Henandez, uma espécie de aprendiz de marinheiro, com 20 anos. Ele estava na própria nau capitânia de Pinzón, sob recomendação de um primo distante, que tentava introduzir o rapaz em algum ofício proveitoso, como forma dele esquecer uma desilusão amorosa muito forte pela qual passara.

-- Ô rapaz, que estais aí a fazer, cabisbaixo, pensativo? Deixa as desgraças para trás, meu amigo. Amores entram e saem de nós como estas cristas de ondas quando se levantam e morrem.... e depois vêm umas borrascas, mas elas são levadas por outras ondas, e experimenta-se um intervalo de paz. Assim é a vida, meu filho. Vamos tocar pra frente a vida. Você está apenas começando a viver. Prepare-se para outras ondas maiores, pois não podemos tirar essas emoções da gente. – O comentário foi do capitão Perez, uma espécie de imediato de Pinzón. As palavras de Perez quebraram o silêncio do jovem galego, que se levantou imediatamente. Sob gesto do oficial, ele voltou a ficar sentado.

-- Meu capitão, quanto às desilusões eu as estou colocando nas rédeas da minha razão. Não se preocupe. Mas de qualquer maneira, obrigado pelas palavras que o senhor dirigiu a mim. Me sinto muito revigorado pela companhia de vocês. Mas existe uma coisa que me preocupa muito no momento. – comentou Mário.

-- O que é que te aflige, ó mancebo de Deus! Posso te ajudar? Vamos, desabafa. Vamos ver o que este velho e experiente capitão pode fazer por você. Confia em mim. Vamos, confessa. Eu sou todos ouvido.

-- Noite passada tive um pesadelo. Sonhei que o nosso comandante tinha se enfurecido com o senhor, por causa de mim.

-- Não seja tão ingênuo, rapaz. Minhas relações com o comandante Rodriguez são as mais profundas. Sou, inclusive, seu (dele) conselheiro nas decisões mais difíceis.

-- Verdade?

-- Sim, verdade! Ontem mesmo ele pediu-me que o substituísse no comando dessa nau, já que ele estava um pouco cansado. É só em mim que ele confia.

Mário começou a desconfiar da “pavulagem” que o velho marinheiro demonstrava, nas entrelinhas das afirmativas.

-- Não acredita, né? Pois vou te provar isso! Amanhã mesmo você receberá um posto. Eu o nomearei chefe de convés, e com a aprovação dele.

-- Puxa, meu capitão! Com todo respeito, acho tão difícil que isto aconteça. Só acredito vendo!

-- Pois verás! – insitiu o capitão – Tenho certeza que verás. Agora, o que deves fazer é deixar o passado de lado e descansar, pois a noite avança, e amanhã terás um dia cheio.


A noite avançou ainda mais. O jovem Mário voltou o contemplar o lugar. O imenso verde que começava a aparecer ao longe, se contrastava com as águas barrentas oiapoquinas, na Costa Palicúria. Estava tão absorto que não percebeu o perigo iminente que se aproximava, quando recobrou os sentidos. Estava entre os jacarés que o cercavam, disputando o corpo bem desenvolvido e branco do castelhano. Os répteis famintos só não o devoravam, porque o astuto pajé dos Tucuju, Itanhaê, ouvindo o grito e avisado por uns guerreiros, o salvou das bocas certeiras e vorazes dos selvagens.

Depois que Mário foi salvo, Itanhaê fitava o rapaz, bem surpreso. Mas a surpresa foi de ambos. O velho feiticeiro quebrou o gelo do silêncio, só que seu idioma não conseguia se fazer explícito. Foram muitas horas de aflição, até que finalmente o experiente Itanhaê soprou um som forte de seu turé. Nesse mesmo instante, choveu guerreiro de todo lado.

-- Esperem... esperem... que audácia é esta? Não quero fazer mal algum a ninguém. Não me façam mal. Ai! Não me batam! Socorro! Socorro!

Surdos aos gritos de alienígenas da Costa Palicúria, os gentios amarraram-no a um tronco e foram, floresta adentro, levando-o como prisioneiro. Os gritos do pobre e assustado castelhano vararam a escuridão, sufocados pelo barulho das águas e pelos gritos dos guerreiros. Afinal de conta, não será todo dia que se capturava um branco. O susto maior seria se fosse comprovado de que o jovem castelhano seria um dos homens do Norte, vaticinado nas profecias da tribo.

Novamente Jaci começou a descer, e as nuvens escuras iniciaram o ritual da chuva fina, juntamente com o desaparecimento de Coaracy. De longe, Jurupari, sob a forma de um caitetu, observava a cena. Mário Hernandez realmente mudou de posto: agora não é mais o lavador de convés, nem descascador de batatas. Ele é o prisioneiro dos Tucuju, e sua primeira noite de calvário estava a se cumprir.

O grito melodioso da mãe d’água deixava claro que ela estava a enfeitiçar mais um guerreiro, que já estava rumo ao seu reino no fundo do rio:



Como é grande a solidão!
Sob o chão de espumas densas
Canta o passarinho nas cascatas,
Tinge coração amor intenso
Das bravatas
Das bravatas

E chama guerreiro forte com emoção
Vem aqui, ó meu rapaz, ó meu amor
Consolar o coração,
Pois no peito sinto falta de um amor...

Como é grande a solidão!
Como é grande a solidão!

Capítulo 04


Niranaê é a virgem de Iratu, índia robusta, meiguice da nação tucuju. Hoje ela se prepara para cumpri mais um ritual, o de sua iniciação à vida social. De sua puberdade, ela passará a ser mulher, mas uma mulher diferente, cuja vida será devotada a Iratu; e essa foi a promessa de Tupã; esse foi o juramento de seu pai, mesmo que tenha sido feito a contra-gosto.

Voltemos ao nosso personagem assustado. Preso e amarrado no mastro principal da aldeia, Hernandez contemplava Niranaê de longe. Os tucuju estavam reunidos na grande ocara, com os mais velhos da tribo, tentando ver que destino dariam a esse invasor branco.

O diálogo aqui, expresso pelos lábios, quase não existe, movido pela dificuldade lingüística momentânea. Porém, o impulso do olhar magnético entre o castelhano e a silvícola, é capaz de traduzir ternura e curiosidade, carinho e compaixão, com um gosto de sedução.

Seria quase impossível que os olhos azuis do europeu não cativassem o coração de Niranaê, e a tez serena da índia não mostrasse, de seus lábios, um sorriso de assentimento; e de seu coração, um feliz retorno às lindes de Eros, com o consentimento da lua Jarí, brilhosa, radiosa, nesta noite tão turbulenta e cheia de sobressaltos.

Foi exatamente nesse clima confuso que o inevitável aconteceu. Niranaê provou, pela primeira vez, a água do homem branco. Mas Jurupari não gostou, pois Niranaê era a prometida de Iratu. Assim, o destino reservado ao guerreiro branco foi apressado: ele acabava de transgredir um pacto celeste. Ou melhor: ele acabava de desvirginar Niranaê. Ela não era, mais, a partir de agora, a prometida de Tupã.

-- Que fiz, meu Deus? Será que você não sabe o que fizemos?

Foi necessária uma mímica toda especial. E Niranaê entendeu, passando a chorar. O que fazer? De cunhatã a cunha. De cunhatã a mulher de verdade, ela recebeu água perigosa do homem branco. Como não houve testemunha real, eles passaram a ser guardiões mútuos de um segredo, pelo menos, por enquanto. Ela foi se banhar no igarapé, para que as águas levassem o fluido seminal de sua sedução.

Duas luas se passaram, e o destino do jovem Mário finalmente foi decidido: Itanhaê conseguiu convencer o Conselho de Tribos que Mário permanecesse entre eles. Mas tinha um preço: o jovem teria que estudar seus costumes e se adaptar a ele. Mário não poderia deixar, a partir daí, em hipótese alguma, os Tucuju.

Quanto à Niranaê, a pobre cunhatã fazia de todas as maneiras para ficar perto do jovem Mário. O tempo os ajudou a compreenderem um ao outro. Mário aprendera a respeitar Itaraê de quem, aos poucos, granjeava admiração. Agora, índio branco, ele se atreveu a falar de seu capricho e de seu amor pela jovem índia. Depois de muitas negativas, finalmente Itaraê, sob recomendação do feiticeiro que tinha recebido, luas atrás, presságio dos espíritos da floresta, de que a índia poderia desposar Mario, consentiu finalmente que fossem marido e mulher, pois ele demonstrou, por muito tempo, que poderia ser confiável.

Mas a feiticeira Makulelê, um pouco matreira, fez Niranaê confessar que estava com umas esquisitisses no corpo, e que o sangue vivo que vinha periodicamente entre as pernas, parara de vir. O contato ente Makukelê e Itanhaê transformou aguilo que poderia ser entendido como tragédia, em uma solução. Um filhote vinha, e era necessário que fosse bem-vindo. Com isso, o velho feiticeiro convence os anciões da tribo e o guerreiro-chefe Itaraê, da necessidade de solicitar às divindades da selva que Mário desposasse Niranaê.

Ao que tudo indica, as divindades consentiram, já que Iratu não enviou alguma manifestação de aborrecimento por algumas luas. Começam os preparativos para o cerimonial do casamento. A noiva está radiante; as mulheres ornamentam a bela Niranaê confeccionando uma coruna dupla, ornada com penas de beija-flor e penacho de tucano. Em volta dos mamilos dos seios, foram colocados adornos sagrados, e um desenho à base de urucum, representando o padrão tucuju de identificação: uma espécie de tucumã, de cujos caroços, eram adornos sagrados dos remanescentes, que representavam a fertilidade. A introdução do desenho do tucumã no seio de uma índia tucuju significa a lembrança de que ela tem o dom da fertilidade, e era obrigatória esta lembrança em todas as índias da nação. Itanhaê pediu a proteção das divindades da floresta, pela união de Mário e Niranaê, invocando a Iratu para que enviasse muita fartura nas terras tucuju, e que do vente de Niranaê saiam os varões que selarão o destino do grupo.

Após a permissão de Iratu, recebida por Itanhaê, os olhos do pai da noiva estava radiantes, pois ele iria, a partir daí, receber lindos netos, mesmo que sejam de coloração diferente. Niranaê sentia-se feliz, pois terias as carícias do seu amado Mário. O galego já não sentia mais saudades da pátria distante... somente algumas lembranças de seu capitão Perez.


*** *** ***

As ultimas noticias davam conta que um certo aventureiro, alcaide-mor de Azurara, de nome Pedro Álvares Cabral, havia partido do Tejo, em Portugal, seguindo a rota de seu antecessor Vasco da Gama, desviando-se, porém, para o ocidente. Isso o levou a descobrir o grande continente, que hoje constitui a nossa civilização, onde se passam estes episódios de história da nação tucuju.

E Pinzón? O rei espanhou, recompensando seus serviços, doa-lhe a patente de capitão-mor e o titulo de governador das terras que ele havia descoberto. Mas o lugar onde agora estava Hernandez, se tornara um ponto geográfico ainda obscuro, mesmo que marcado nas cartas de Pinzón a seu rei: Rio de Vicente Pinzón, localizado na Costa Palicúria; rio que dará guarida aos guerreiros wajapi que virão, mais tarde, do baixo Jarí. Mas vamos por parte.

O caxiri ficou mais gostoso nesse dia, no Cabo do Norte. A dança do turé foi executada com os acordes do velho Jandir, o mestre da musica, que também era mestre preparador de emboscadas, e desencantador de sereias. E Jandir conseguiu faze-las desistir, por três luas inteiras, de importunar qualquer guerreiro por aquelas bandas.

Fez-se Araci novamente. Jurupari pretendi seguir sua missão, atrás de outra virgem para Iratu, já que essa fora arrebatada para Hernandez.

De longe, no alto Araguari, a pororoca começa a quebrar o silencio. A cunhatã recolhe amostras de jurema para fabricar um manjar para os noivos sedentos de amor. Kerpinhana, a divindade dos sonhos, passa imagens eróticas nas mentes de Mário de Niranaê. Jaci já instalou seu reino provisório sobre a face da terra. Só se ouvem agora os cricrilos e estalidos dos grilos, e o barulho ululante dos seres da floresta, que agora dormia entre os elevados do Tumucumaque.

Capítulo 05


Estamos atravessando o ano de 1504, na contagem do homem branco. Muitas luas se passaram desde o casamento de Mário e Niranaê. Nas terras do Cabo do Norte nasce um lindo curumim. O nascimento foi interpretado, segundo os feiticeiros da tribo, como um pacto entre os senhores da floresta e os tucuju.

– Neto meu. Curumim robusto. Homem que minha filha me deu. Eu estou muito feliz - murmurou de alegria, o guerreiro Itaraê, ao lado da avó Itanubá, também toda contente.

– Sim, meu marido. Muito feliz também eu estou, porque agora sou avó.

– Se mulher Niranaê é filha minha, menino será valente... grande guerreiro e caçador. Boiúna respeitará. Onça suçuarana mal não fará. Menino tem proteção de Iratu.

O velho Itanhaê havia sabido da notícia. Não podiam ver Niranaê, tampouco o menino, até que estivesse completo o ciclo da gestação, que perduraria por uma lua (equivalente a um ciclo lunar na sabedoria do homem branco, isto é: quatro semanas, o que correspondia a um mês). Niranaê, segundo o costume da tribo, teve sozinha o curumim. Limpou-o e cortou, com os próprios dentes, o cordão umbilical, passando na ponta um pouco de cinza quente de tabaco, para sarar logo. E as duas luas se passaram. Mário Hernandez já havia assimilado o idioma tupi, e passou a ensinar a seu sogro, ao amigo e a quem chamava de “pai” Itanhaê e à sua esposa, a língua espanhola, aliás, tão melodiosa como o tupi.

– Êta menino robusto! É sangue do meu sangue. É pele de minha pele. Tem uma coloração tão tosada quanto a ponta do mamilo de sua mãe – falou Hernandez.

– Você falou de mim? Será que eu tenho beleza, meu marido? – perguntou Niranaê, toda contente.

– Você é muito mais bela que todas as galegas que conheci, dalém mar. Mesmo a beleza da filha do capitão Pinzón, ajudada pela maquiagem das damas vaidosas, não se compara à sua beleza natural, esposa querida. É por isso que te escolhi para ser a minha companheira até o final de nossas vidas.

– O meu marido está agora a gozar de mim – desconfiou Niranaê ao ouvir os galanteios de Hernandez.

– Não, querida... não é verdade! Eu te amo muito! Você está sendo a mãe dos meus filhos. Deus é testemunha de nossa união, e tenho quase que certeza de que ele me abençoa e abençoa nossa família, explicou o jovem galego.

– Você acredita muito nele, não é? Será que ele também gosta de mim? – perguntou, cheio de ternura e inocência, Niranaê.

– Sim, meu amor. Tenho nele toda a fé do mundo.

– Meu povo também tem fé em Iratu; e quando alguém comete uma falta grave, ele envia Anhangá, o destruidor, para fazer companhia ao faltoso.

– Fale-me um pouco de Anhangá – pediu Mário a Niranaê.

– Não podemos falar de Anhangá, porque ao invocar seu nome, ele pode vir assombrar a gente, e fazer muita desgraça. O único que pode falar de Anhangá é tio Itanhaê, mas eu duvido muito que ele queira falar alguma coisa com você sobre esse espírito mau.

– Vale a pena tentar. Vamos até ele. Deixa que eu pergunto – falou, convincente, Hernandez.

Ninaraê insistiu muito para que Mário não falasse com seu tio sobre Anhangá. Mas, diante da teimosia do galego, ela cedeu e se foi em companhia do marido, até a tenda do feiticeiro. O velho Itanhaê estava pitando seu cachimbo de barro e taboca. Ouviu o barulho da chegada dos dois moços. Niranaê estava com o curumim no jamaxi.

– Pai Itanhaê, tudo bem? – cumprimentou o galego ao se aproximar do feiticeiro.

– Tudo bem, filho. A família está bem? E você, Nira, como vai? Como vai o menino?

– Vai tudo bem, tio – respondeu a índia-guerreira.

– Queremos conversar com o senhor. Podemos? – perguntou Hernandez.

– Claro que sim, meus filhos. Podem entrar. Tio está ouvindo. Que querem com este velho aqui?

– Tio, queremos saber alguma coisa sobre Anhangá – respondeu Mário.

Após o galego ter pronunciado o nome proibido, a face de Itanhaê ficou robusta de raiva. Antes de falar alguma coisa, o feiticeiro se engasgou com a fumaça do cachimbo, que por uns alguns segundos foi necessária a ajuda de Mario para dar-lhe uns bons murros na costa. Ele vociferou:

– Fora daqui! Nome de demônio á mau agouro. Fazem três luas que afastei Anhangá daqui, e vocês vêm aqui falar o nome dele?

– Mas tio – retalhou, preocupado o galego – desculpe-me. A culpa foi toda minha. Queria apenas saber alguma coisa sobre ele. Niranaê não tem nenhuma culpa nisso. Não queríamos ofender... tampouco quero me cruzar com ele... já que ele é tão mal assim...

– Assim é que se fala, menina. Mas como eu amo muito você, e com certeza o Mário tem que ser orientado sobre essas artimanhas de Anhangá, eu vou abrir uma exceção e contar alguma coisa sobre ele. O que vocês querem saber, agora, sobre o maldito?

– Tudo.

– ???!!!

– Não se assuste, tio. Está em! Só ouvirei aquilo que o senhor falar, sem perguntas!

– Assim sim! Sem perguntas mesmo. Pois bem. Anhangá é visagem de gente, de tatu, de veado e de boi. Em qualquer um, Anhangá trás para aquele que o vê, ouve e pensa, a desgraça; e qualquer lugar freqüentado por ele, é mal-assombrado. Anhangá está também na água, em forma de pirarucu e tartaruga, que são o desespero de nossa gente, quando está pescando...

– Como ele aparece? - interrompeu Mário, deixando o velho mais nervoso ainda.

– Você prometeu não fazer perguntas.

– Desculpe, “pai”. Só vou fazer essa mesma e nenhuma outra: me diga como ele pode aparecer para a gente?. Não custa nada responder, tio.

– Toda cabana sem azeite queimado, chama Anhangá. Também Anhangá aparece a índio que persegue animal que amamenta. Às vezes ele vem, confundindo gente que ouve. Anhangá bicho mau, piaga, primo de Jurupari. Existem muitas histórias do meu povo sobre Anhangá. Existe aquela que...

– Conte-nos esta. – interrompeu novamente o galego.

– Meu filho, você me interrompe muito! Não cumpre palavra! Fizemos um trato. Trato é para ser cumprido. – falou, um pouco raivoso, Itanhaê.

– Puxa, tio... você não deveria se aborrecer tanto com Mário. Não fique zangado. Leve em conta que ele nada sobe sobre as artimanhas de Anhangá e tem que ser instruído para que não caia em nenhuma delas – suplicou Niranaê, em defesa de seu marido.

– Você não precisa implorar, Niranaê. Ta bom! A partir de hoje vou ficar mudo – vociferou, já impaciente, Mário – Não vou falar mais nada... não vou perguntar nada mais. Sou um túmulo. Sou um turé seco... mas também, tio, se não quiser falar nada, não estou nem aí. A boca é sua, a sabedoria é sua e faça o que quiser. Paciência!. Deus me livre! – atalhou, já bem aborrecido, Hernandez.

– Tá bom! Tá bom! Você me ganhou. Eu não quero mais ver homem choramingar na minha frente – Agora, com paciência, o feiticeiro passou a atender Mário. – Vocês pediram para eu falar de Anhangá com vocês. Eu vou falar. Só não venham reclamar depois, se mau agouro entrar na tenda de vocês. Aí vai: Uns veados devastaram uma roça e os donos da plantação mataram e levaram os corpos para moquear. Pela manhã encontraram, em vez de carne do veado, carne humana em cima do moquém. Jogaram ao rio a carne humana moqueada. Duas luas depois, apareceram pessoas que procuravam seu avô e a mulher do avô, que se tinham daí sumido. Já então, essa gente soube que aqueles dois velhos que estragavam suas roças, eram gente.

– Puxa! Isso aconteceu, tio? – perguntou Mário, um pouco apavorado!

– Claro que aconteceu, Mário – asseverou Niranaê – hoje mesmo eu ouvi falar de um relato de...

– Niranaê não precisa me defender – interrompeu bruscamente Itanhaê. – Eu, Itanhaê, filho de Assyntawá, me defendo sozinho. – Niranaê calou-se, em reverência ao velho sábio. Mário imitou a índia.

– Afinal de contas, sou em quem persegue Anhangá para ficar bem longe daqui. Vou lhes contar outro caso que se sucedeu com esse demônio: A poucos instantes daqui, um índio perseguia uma fêmea de veado que era seguida do filhinho que amamentava, depois de havê-la ferido. O índio, agarrando o filho da ‘veada’, embrenhou-se atrás da árvore, fazendo o veadinho gritar. Atraída pelos gritos de agonia do filhinho, a ‘veada’ chegou-se a poucos passos de distância do índio. Ele a flechou, ela caiu. Quando o índio, satisfeito, foi apanhar bicho abatido, reconheceu que havia sido vítima de Anhangá. A ‘veada’, a quem ele, índio, havia perseguido, não era uma ‘veada’. Era sua própria mãe que jazia morta no chão, varada com a flecha, e toda dilacerada pelos espinhos.

Itanhaê silenciou de repente. Já não podia falar mais nada. Prosseguir era perigoso demais. Niranaê entendeu e fez sinal a Mário para que silenciasse. Após o feiticeiro ter recomendado o destino do menino que Niranaê conduzia ao colo, aos espíritos da floresta, o ‘filósofo tucuju’ entregou-se ao sono merecido, após ficar o dia inteiro dedicado às suas tarefas. Sabia Itanhaê que o filho de Mário era mais uma dádiva de Jacy que, radiosa, já contemplava a noite. Após o sono, Jacy agora é Aracê... é dia... e Mário Hernandez pronunciou, pela primeira vez, o nome de seu primogênito, segundo o costume tucuju:
– Ele se chamará Hernan, e viverá muito. E sua luta do dia-a-dia só servirá para assegurar a paz à nossa gente. Tupã, ou meu Deus cristão, sem dúvida alguma, protegerão nosso ‘rebento’, e ele será a aurora de uma vida rica e tão doce, cheia de aventuras! Jurupari ou Anhangá não serão capazes de interferir na vida desse nosso menino... e seremos, os três, e mais outros que porventura vierem, muito felizes!

O rugido do mar amazônico começara a entoar seu canto de amanhecer. Os botos, ao longe, não eram capazes de quebrar a melodia da floresta. Na mente da juventude tucuju, o tom musicalizado era das vozes dos caboclos distantes, que preparavam-se para a jornada da caça e pesca. E a mulherada, com curumins de todos os lados, já espremia o tucupi no tipiti; outras, ralavam com pedras pontiagudas, o aipim para fazer a tão gostosa farinha de mandioca, tributo de Kokiretê, Zokoietê e Aiolô, as divindades da fartura e do alimento. Hernan ainda dorme no seio de Niranaê.

Capítulo 06


Os primeiros frutos de tucumã começam a surgir. O fruto do açaí já brilha, de longe, da palmeira. O cupuaçu floresce e seu aroma exala por toda a região. É tempo de fartura. Trinta e seis luas (três anos, na contagem do homem branco) tem agora Hernan, e o jovem Mário se orgulha, como um pai feliz. Niranaê, também, não podia deixar de estar feliz com tudo e com todos. Mas alguma coisa anormal começou a acontecer. Alguns nativos estavam assustados, e interrogavam-se mutuamente.

– Que foi, Ikatuã? – perguntou uma índia ao seu lado.
– Ikatuã assustado... muito... muito – respondeu o jovem Ikatuã.
– Assustado Ikatuã por que? – insistiu a interrogante.
– Ikatuã viu Curupira perto do igarapé. Curupira grande.
-- Maior que boiúna?
-- Não. Boiúna maior. Boiúna tem mais poder que curupira, mas curupira assustou Ikatuã.

E a índia interpelou, ainda mais.

-- Por que Ikatuã tão assustado por causa de curupira?

Estremecido, Ikatuã respondeu:

-- Curupira pediu avisar Mário que novo curumim não é um simples índio. Curumim de Mário é mais forte. Sangue é forte.. Preciso avisar Niranaê.

Nisso, Itanhaâ, o pajé, estava chegando, e ouviu o final do relato do jovem Ikatuã.

-- Que diz Ikatuã? Por que tanto susto? Quem te mordeu?
-- Ikatuã tem recado de Curupira pra Mário.
-- Hum!... que recado?

E o jovem índio narra ao pajé o encontro entre ele e a entidade da floresta.

-- Só isso? – pergunta Itanhaê ao jovem índio assustado.
-- Sim, meu velho. E você ainda acha pouco? O menino de Mário será um menino gigante no futuro. E o senhor acha que isso é normal?
-- Como vocês jovens tiram conclusões tão apressadas.... Ora ora! A notícia é boa.
-- Boa notícia por que? – perguntou Inhetá, a mulher do feiticeiro, que estava em companhia dele, pitando.
-- O menino Hernan não será gigante, não será um homem grandão. O recado de Curupira não é isso. A boa noticia é que Mário e Niranaê vão ter outro curumim. E não será homem. Será mulher, e muito bonita.

Muitas luas se passaram. Na cabana de Mário, o choro de um novo ser passou a quebrar o silêncio da madrugada. O galego sabia que Niranaê estava esperando uma criança, mas não imaginava que iria nascer, exatamente, naquela noite. Ou o nascimento foi prematuro, ou a índia não soube calcular direito a gestação. Ele não sabia se ficava feliz ou triste. Feliz porque viria um novo ser, do ventre de sua índia, encher a nação tucuju de alegria. Triste porque, caso seja nascimento, sua Niranaê terá que se separar de todos – segundo os costumes da tribo – até o período do resguardo, e ele terá que fazer tudo isso sozinha.

-- Niranaê, meu anjo, o que aconteceu?

E a índia responde ao marido:

-- É outro presente que te dou, marido meu. É uma linda cunha.

Mário foi olhar rapidamente a criança que saiu agora para a vida. Ele ainda não vai poder pegar no bebê, mas de longe, já começou a dar instruções para a sua cunhatã:

-- Ela se chamará Amália, nome de minha irmã mais velha, que nunca mais a verei! Este nome será minha alegria e ao mesmo tempo perpetuará minha saudade e meu encanto pela mana que está distante... muito distante.

Várias lágrimas começaram a descer dos olhos do galego. A saudade da família tocou neste instante. A índia o interrompeu.

-- Não chora, meu marido. Vamos nos conformar com as determinações de nossos deuses. Eles devem ter seus motivos, e com certeza estão brindando a chegada de nossa cunha. E ela será Amália, sim. E Hernan será seu irmão guardião. Amália é mais um fruto de minha entranha, e parte de você, e é bem vinda aqui!

-- Sim – assentiu Itanhaê, que vinha chegando para dar as boas vindas, antes da clausura de Niranaê e seu bebê para o cumprimento do resguardo. – Conversarei com nossos guias protetores, para que protejam nossa linha cunhã. Será a cunhatã mais linda, tão linda quanto sua mãe, e terá, também como sua mãe, seios fartíssimos e cheios de leite para reproduzir, no futuro, guerreiros maravilhosos.

O velho cacique já estava de volta da caça, e também sentiu-se feliz pela notícia. Seus 61 anos, e acordo com a contagem do homem branco, o faziam ainda guerreiro respeitado, como seu pai Itagiba o foi. No instante, ele deu os gritos de guerra maiores de todos os outros que já havia dado, em acontecimentos como este. E parecia que a floresta silenciava... os animais dos arredores o escutaram... e calaram-se, talvez em reverência e respeito, afastando até mesmo – quem sabe – os demônios da noite.

-- Amália, minha neta, filha de Niranaê!. Homem Mário tem filha bonita. Somos todos gratos a Iratu, pelo presente. – profetizou Itaraê, todo feliz.

-- Somos também gratos a Deus, por Nosso Senhor Jesus Cristo! – acrescentou Mário. – Obrigado, Senhor, pelo presente divino que veio do ventre de Niranaê.

-- Obrigado Jesus, obrigado – completou a índia, ajudando o marido numa espécie de prece, por uma divindade que ainda não lhe era conhecida, mas que era muito grata, por ter lhe dado um jovem galego tão bonito como Mário. Sorte igual não tiveram as mulheres da sua aldeia.

O ciclo de recolhimento de Niranaê terminou, após uma lua. Ela é recebida em festas pelo marido e o filho Hernan. Os turés começaram a aparecer mais tesos. O rio estava em sua vazante. Os tapuios recolhem agora o material de pesca. Dezesseis pirarucus e trinta curimatãs agitavam-se desesperadamente, frente ao sacrifício do fogo em brasa, que já arde, na clareira improvisada pelo velho Itanhaê, que resolveu dar uma de mestre de culinária do mato. As índias acabaram de aprontar o caxiri e todas essas iguarias seriam servidas daqui há pouco, para marcar o nascimento de Amália. Com ela, vieram novas alegrias e bons presságios, e a esperança de dias melhores.

Capítulo 07

E
stamos no ano de 1508, na contagem do homem branco. Na nação tucuju Hernan está no descampado da margem direita do igarapé principal, observando o tio-avô Itanhaê, que coleta ervas sagradas. O grande jacaré está à espreita, em algum vacilo que o curumim poderá dar. Hernan recolhe, agora, alguns frutos silvestres no seu balaio. Seus cinco anos de vida já lhe dão um vigor de varão-menino. O jovem guerreiro mirim se afasta um pouco do pajé.

O jacaré-açu, ao longe, ainda o observa. Também a jaguatirica, com saudades de sua última caça, alimenta a possibilidade desta pequena sobremesa. O silêncio é quebrado pela voz do filósofo da tribo, que pergunta pelo curumim.

-- Hernan... Hernan... Onde estás, meu filho? Responde-me, por Iratu.

O curumim ouviu os gritos do velho pajé à sua procura, mas está imóvel e com medo, diante do perigo. Coracy já estava bem em cima do céu, anunciando a hora do almoço. Os olhos da jaguatirica não mostravam tanto brilho, pois era dia, mas seus sentidos estavam aguçados e agitados para o bote. Ao desfecho do mesmo, ela sentiu, de repente, uma dor acutíssima na região do pescoço. Segundos depois, jazia sem vida, cravada por outra flecha certeira na região do coração, desferida pelo feiticeiro. Só restava o jacaré, que não percebeu a rapidez da manobra do velho. O curumim já avistava Itanhaê na outra margem. O jacaré resolver debandar também.

-- Pai, foi o senhor quem fez isso? – perguntou, atônito Hernandez que estava chegando naquele momento, em razão dos gritos de seu ‘pai’.

-- Psiu! Quieto!

Não foi preciso avisar Hernan de outro perigo. O primeiro jacaré havia desaparecido, não por causa da presença do feiticeiro, mas por causa de outro jacaré ainda maior, que disputava também a pequena caça. O curumim ficou paralisado... não somente de medo, mas também em obediência ao velho guerreiro. Não muito rápido, mas com técnica e precisão, o velho Itanhaê ficou à frente do réptil, com a borduna em punho. Num vacilo do velho, porém, o jacaré abocanhou Itanhaê e o puxou para o igarapé. Foi uma grande luta. Poucos minutos depois, aparece o velho banhado em sangue... sangue do réptil, cujo corpo já boiava na superfície.

-- Tio, tio... o jacaré comeu o senhor? – perguntou, assustado, o menino.

-- Não estás vendo que estou vivo, curumim?

O menino olhou fixamente para o velho. Já ia chorar, mas sentindo um piscar de olhos de Itanhaê, ambos começaram a sorrir. O velho feiticeiro abraçou o menino. Ficaram algumas horas conversando sobre o episódio. A conversa foi cortada por um barulho vindo da parte Norte de onde se encontravam.

-- Hernan, Hernan... meu filho! Ó Hernan! Você está bem? – perguntou, apreensivo, Hernandez, após passado do susto.
-- Estou bem, papai – respondeu o curumim.
-- Puxa! Onde você estava, menino? O que foi que... -- Itanhaê interrompeu:
-- Ele estava comigo o tempo todo, Mário! Que mal há nisso? – Só agora Hernandez sentiu a presença do velho feiticeiro.
-- Oh, desculpe-me, ‘pai’ Itanhaê. Não tinha notado sua presença.
-- Que coisa! Será que estou tão invisível assim?
-- Não é isso, meu velho. É que estava tão preocupado com esse curumim, que não via outra coisa além da vontade de me encontrar logo com ele. Desculpe-me, ta?
-- Tá bem. Dessa vez passa! – e saiu resmungando. Mário dirigiu-se ao menino, mais calmo:
-- Estás bem, filho?
-- Sim, pai. – disse Hernan.

E observando mais de perto o velho pajé, Mário notou o cheio e a cor do sangue vivo. E o menino explicou:
-- Tio Itanhaê lutou com o jacaré que ia me comer. Também lutou com a jaguatirica que estava também querendo me comer.
-- O que? – Mário começou a perguntar, preocupado, para o feiticeiro, o que aconteceu aqui, ‘pai’ Itanhaê? Conte-me o que aconteceu, senão vou ficar doido...

E Itanhaê contou tudo, mostrando a jaguatirica estendida, e ao longe o corpo do jacaré, que se misturava à água barrenta do igarapé, que estava um pouco tinto de vermelho.

-- Meu Deus! Que perigo o senhor passou! Agora que minha dívida aumentou mesmo. Como vou lhe pagar?

-- Você não me deve nada, meu filho!

-- Como não lhe devo? Foi o senhor quem me salvou, logo que caí do navio que vinha da Galícia! Agora o senhor salva meu filho, meu único filho, além de Amália?

-- Seu único filho? Quem lhe falou esse absurdo?

-- ???!!!
-- Ah, é? Que cara é essa? No ventre de sua mulher já está se formando outro curumim. E tenha cuidado, que Jurupari já sabe! E não vai ser curumim... vai ser cunha!

As têmporas de Mário começaram de novo a ficar rosadas. Itanhaê revirou os olhos e o nariz para um lado e para outro. Pitou um bocado e colocou no seu balaio as ervas que precisava, perdendo-se, em seguida, na floresta, rumo à sua casa. Mário pegou Hernan pelo braço, e foram correndo também. Niranaê já os esperava.

Muitas luas se passaram. A criança nasceu.

-- Como és linda, menina! – falou Mário.

-- Como você sabe que é mulher? Quem lhe contou? – perguntou, assustada, a mamãe Niranaê.

-- Foi o velho feiticeito. Itanhaê é sábio. Sabe tudo! Sentiu até ocheiro da criança passando por suas narinas.

-- Que nome daremos a ela, meu marido?

-- Ela se chamará Luzia, porque veio dar mais luz à nossa vida... veio luzir nossa taba de amor e harmonia.

-- Se você quer, tudo bem!. Agora somos cinco: eu, você, Hernan, Amália e Luzia.

-- De fato somos cinco!

-- Somente cinco, não é, meu marido?

-- Não. Itanhaê falou que virão mais...

-- Não duvido. Itanhaê sabe o que diz, e diz o que sabe! – completou Niranaê.

-- Não se preocupe, querida. Amo você e todos eles. Que venham todos. Vamos construir uma grande família.... e uma nova nação.

Noite qualquer de 1508. O cururu começa a coaxar alto! A velha Ikatuã cantarola uma canção de ninar tupi. As jaguatiricas e suçuaranas tomam posição para abordar uns quatipurus que estão por perto. Jacy agora reina, e os cricrilos e estalidos dos pequenos animais já alimentam o silêncio sonoro produzido pelos ventos nas palmeiras. Luzia veio, mais alegre que outras meninas. Não é preciso dizer que o caxiri novamente foi servido.

Capitulo 08


-- Que houve, curumim? – perguntou Jerena, o irmão mais moço de Itanhaê, ao menino que se aproximava.

-- Boiúna apareceu há poucos instantes, e devorou um pequeno tapir. Sua mãe tentou salvar o filhote, mas foi também devorada – respondeu Hernan.

-- É Jurupari. É Jurupari. E o que foi que você fez?

-- Peguei turé e persegui boiúna.

-- Você está doido, menino? – perguntou, preocupado, Jerena.

-- Ora! Fiquei com pena dos pobrezinhos dos animais que foram comidos pela cobra.

-- E o que era que tinha? Você não aprendeu de seu pai que quando Boiúna aparece, não podemos fazer nada? É Iratu que precisa de gente de vez em quando. Índio pode matar suçuarana, jaguatirica, quatipuru, quando está com fome. Índio não pode matar boiúna, nem em forma de sucuri. Boiúna é um único bicho que índio não pode matar. É animal de Iratu. Quando Iratu precisa de alguém, manda sucuri pegar. Por isso mesmo, índio não pode matar nem molestar boina.

-- Está bem, tio Jerena! Quando cobra sucuri aparecer, fico lcalado, parado, e a convido a me comer...

-- Também não precisa ficar assim. Você não corre perigo. Ninguém corre perigo.

Jerena se afastou, em seguida, deixando soltar um murmúrio de preocupação com os elementos da natureza. Hernandez e Niranê estão a confabular em sua nova casa. Já se passaram dezenas de luas desde o nascimento de Luzia. Estamos em 1520, e Niranaê começa os preparativos para o próximo curumim que vai nascer.

-- Como será o nome dele? – perguntou a índia ao seu marido.

-- Será Jacareí.

-- Por que tanta certeza de que ele será homem? – perguntou, assustada, a índia.

-- Porque Itanhaê me contou mais uma vez. Será Jacareí para lembar que Hernan, seu irmão, foi salvo de um jacaré. Para lembrar que eu, seu pai, fui salvo por Itanhaê de vários jacarés famintos. Para lembrar...

-- Chega! Chega, marido! Que coisa!... Não precisa repetir tudo isso. Estás com algum problema?

-- Não! – respondeu secamente o galego.

Niranaê notou que seu marido estava nervoso. Ficou também calada, sem mais perguntas, pois sabia o motivo: saudade de seus parentes da longe Galícia... da navegação... dos colegas de trabalho... e de um mundo diferente. Ela contemplava-o, comprendendo seu silêncio, com a intuição feminina de adivinhar seus pensamentos. Mas de repente, o grito quebra o silêncio.

-- Que foi, Niranaê?

-- Ele vem... está vindo. É ele mesmo...

-- Quem, minha flor?

-- O novo curumim. Jacareí...

E nasceu Jacareí, com uma vontade imensa mesmo de nascer. Dia seguinte, todas as cunhatãs estavam a visitar Niranaê, que foi contemplada com a mais nova dádiva. Jacareí veio somar aos guerreiros mais afoitos da nação. O ano de 1513 começa a raiar, na região dos Tucujus. Os Tapujusus já haviam se fixado na parte mais ao norte. Há alguns vestígios de Surubiú também perto do rio. Hernan tem 10 anos.

O dia está convidativo. Cachoeira murmura água limpa. Guariba à espreita, tentando imitar a gralha, que começa a imitar também o sabia-laranjeira. Também Uirapuru com seu mavioso canto, não fica para trás. Barulho se rompe mata adentro, acompanhado do rumor da água cristalina da cascata. Cunhas e cunhatãs em seu trabalho, e os jovens guerreiros à procura de caça, pois a pesca já não está tão copiosa nesta época de inicio do ano, apesar da presença das chuvas de janeiro. E o agora jovem Hernan já consegue ser seduzido pela água. Seu avô o ensinou como aproventá-la e senti-la. Itanhaê lhe orientou sobre a arte de escutar o rio. O matupiri e a traíra estão em convivência pacífica, observando o tamuatá à caça de alimentos no fundo do igarapé.

-- O que esta acontecendo, jovem Ituã? – perguntou o galego, ao adolescente, que estava tremendo. O índio respondeu de imediato:

-- Ituá assustado.

-- Assustado por que?

-- Ituã viu pássaro branco longe, boiando na água.
-- Onde? – insistiu Mário.

-- Vem! Ituã mostra.

Eles foram ao local. Mário compreendeu que se tratava de várias naus que, mesmo distando há várias milhas do local, suas velas já começavam a ficar visíveis e grandes. Talvez três, quatro ou cinco... trazem a bandeira o reino de Castela.

-- Ituã não compreender. Me explica, Mário. – insistiu o jovem guerreiro.

-- Tu sabes, Ituã, como eu vim parar aqui?

-- Ituã não saber.

-- Foi navio grande como esses que estais vendo. Um dos navios, o que eu viajava, bateu numa rocha e me jogou ao mar, e Itanhaê me salvou dos jacarés que estavam querendo me devorar.

-- Puxa! Então dentro daqueles pássaros que se aproximam tem mais gente parecida com o senhor, tio Mário?

--Tem sim!

De repente o jovem índio deu um salto, com ares de apavorado. E perguntou em seguida, assustado:

-- Então eles vêm lhe buscar?

-- Não... não! Não se preocupe. Na realidade eles nem sabe se estou aqui, ou se ainda existo. Na realidade eu não existo mais para eles.

-- Como que o senhor não existe? Aqui na aldeia todos sabem que o senhor existe!

-- Mas é diferente, Ituã. Aqui são poucos. Lá, de onde vim, são milhares e milhares. Nem todos se conhecem.

-- Puxa! Quanta gente que eu não conheço. Pensava que só existia aqui, e nada fora daqui...

Pararam de conversar, e observaram que os guerreiros tucuju estavam todos enfileirados na praia. Mário estava à frente. O bote já trazia, da caravela principal, três desconhecidos, todos enfeitados, paramentados com roupa diferente, e acompanhados de outros botes cheios de gente, que vinham atrás. A caravana de visitantes avistou logo os tucuju em silêncio, e um homem diferente, alto, louro, olhos azuis e pele branca, começou a descarregar e sorrir. O homem era o bem mais vestido dos três. Perto de outro homem com uma túnica toda preta, e carregando uma cruz cristã, ele observava os trajes dos índios, e destacou logo, através da coloração da pele, que alguns eram um pouco mais claros, e tinha outro bem mais claro, com traços europeus, perto deles. E exatamente se dirigindo a Mário, o chefe dos louros fez sinal a ele, pedindo permissão para sair do bote. Mário olhou para o chefe Itaraê, que o autorizou a dar a permissão. Aproximou-se, então, o homem desconhecido, fitando Mário.

-- Bom dia. O senhor fala ‘castelhano’? – perguntou o europeu, quebrando o gelo do silêncio.

-- Bom dia. Sim, eu falo castelhano. – respondeu Mário. E nesse instante o coração do galego bateu mais forte, pois já faziam quase 30 anos, na contagem do homem branco, que não tinha noticias de Castela, tampouco do reino da Galicia.

-- Meu nome é Diaz de Sólis. Sou navegador a serviço de Sua Majestade o Rei de Castela, Estou iniciando o reconhecimento oficial dessa região. Até agora só sabíamos informações provindas do capitão Yanez Pinzón...

-- Capitão Pinzón? – interrompeu, bruscamente, Mário, acrescentando: -- qual dos Pinzons o senhor está falando?

-- Vicente. O senhor o conhece? – perguntou, surpreso, De Sólis.

-- Sim. Eu o conheço. Depois que saí menino da Galícia, passei a morar no condado de Caste4la, e fui recrutado para os serviços do capitão Pinzón. Trabalhei com ele por longos anos até chegar aqui. Fui ajudante de grumete de um de seus navios.

-- Valha-me Deus! A Providência Divina está ajudando a expedição de nosso augusto rei! Nunca eu poderia imaginar que pudesse encontrar um patrício por essas bandas! Principalmente alguém que conheceu o grande Pinzón! E você, pretende ficar aqui? Vejo que sua pele está pintada e já tem umas crianças mestiças. Você já se veste igual a essa gente.

-- É, capitão! Pretendo ficar por aqui mesmo.

-- Algo te impede de sair daqui, meu bom homem? Estamos aqui para te proteger e te dar cobertura, caso queiras vir conosco. Serás de grande utilidade para Sua Majestade nosso Rei. Através de você ele saberá o dia-a-dia destas terras, e quem sabe, ele não te nomearás para o cargo de Adelantado?

Mário chamou Niranaê, que estava próximo de seus filhos, e apresentou-a ao comandante da expedição:

-- Essa é minha família. Niranaê é minha mulher... e esses são meus filhos.

O capitão Diaz, surpreso, dirige-se a Niranaê.

-- Puxa! Que mulher bonita tens! Beleza natural e sem aquela maquiagem das européias, jamais vistas, homem! – e batendo forte nos ombros de Mário – você tem muita sorte...

Seu papo foi interrompido. O baque que teu no ombro de Mário, quase que provocou um desastre. De inopino, todos os guerreiros, armados de tacape e borduna, outros de arco e flecha, já vinham em socorro do galego, ordenados pelo velho Itaraê, que não entendeu aquele cumprimento de homens brancos.Percebendo o perigo que o oficial corria, Mário fez sinal para que eles não reagissem... e se dirigiu, correndo, ao velho cacique, na língua galega que ensinara ao velho guerreiro:

-- Itaraê, meu sogro, não deixe fazer mal a essa gente. Este toque que o chefe deles me deu é um cumprimento de amizade, que usamos muito lá na Europa, quando estamos alegres. Por favor, não entenda mal, sim? Faça isso por mim, ta?

O velho guerreiro, mais calmo, ordenou aos guerreiros que baixassem as armas. E falou, solenemente, a todos:

-- Itaraê também pede desculpas e oferece lugar para repouso. Grande festa hoje, para saudar irmãos filho Mário. Amigo de Mário é amigo de Itaraê. Inimigo de Mário é também inimigo de Itaraê.

Diaz respondeu, um ouço surpreso:

-- Puxa! O senhor fala castelhano? Quem lhe ensinou a falar tão bem a nossa língua?

-- Mário ensinou Itaraê, filha Niranaê, e parte desses guerreiros tucju. Mário bom homem, ensinou a gente a falar língua estranha, mas engraçada, de branco.

-- “Capitão” Itaraê, em nome de Sua Majestade o Rei de Castela, eu e meus homens ficamos alegres pelas saudações de seus homens. Só vamos ficar aqui hoje. Amanhã cedo partiremos. Mas no meu coração de velho ‘lobo-do-mar’, ficará a lembrança tão pura e alegre desse povo de raça prístina. Ficamos honrados em te conhecido guerreiros tão fortes, tão varões, tão destros... – O velho cacique, não entendendo a fala do chefe branco, interrompe:

-- Itaraê não entender essas palavras do capitão.

Percebendo que o linguajar cerimonioso de Diaz de Sólis foi incompreensível para Itaraê, Mário explicou ao guerreiro-chefe, de forma simples, ao que Itaraê respondeu:

-- Hum! Agora Itaraê entende. Capitão, pode ficar aqui o tempo que quiser. Lá na grande taba tem bastante lugar para seus guerreiros descansarem.... – Mas o cacique foi logo cortado pelas palavras de Sólis:

-- Eu agradeço seu convite, chefe Itaraê. Porém, vamos hoje dormir nos navios, pois meus homens estão há muitas semanas navegando, e com tanta índia bonita aqui, expondo suas belezas, não queremos provocar incidentes desagradáveis por aqui.

Mário explicou ao chefe as preocupações do capitão Diaz. Itaraê entendeu, mas impôs uma condição:

-- Está bem! Itaraê entende capitão. Capitão demonstra ser bom homem e bom chefe. Mas Itaraê quer fazer festa hoje, quando Jaci aparecer. Nossas mulheres dançarão com seus homens. Os homens das nossas mulheres vigiarão seus homens, para que não cometam exageros...

-- Aceito com prazer. Virei à festa. Trarei apenas meus homens de confiança. Mas amanhã cedo partirei. Penso que Mário virá comigo, se quiser.

-- Não. Mário pertence agora à nossa gente. Todos os nossos guerreiros gostam de Mário, e Mário e feliz, com minha filha Niranaê, os curumins e as cunhatãs.

Mário ficou preocupado com a brusca reação do velho cacique, mas também notou muita ternura nas palavras do guerreiro-chefe. Pediu, assim, um tempo ao Capitão, e foi falar com o grande chefe:

-- Pai Itaraê, fique descansado. Jamais abandonarei vocês. Aqui é meu lar, minha família são todos vocês. Amo Niranaê, e tenho certeza que só poderei ser feliz aqui mesmo com você. Fique tranqüilo. Meu lar é aqui.

No exato momento, o velho guerreiro deu um abraço bem forte no galego. Pela primeira vez esse gesto do cacique foi executado. E assim, falou o guerreiro tucuju:

-- Itaraê agradece filho! – No mesmo instante, Mário tratou de enxulgar três lágrimas que saíram do rosto de Itaraê. Seus 80 anos de vida ainda o conservavam lúcido. Mário, agora, estava convicato de que tinham pessoas que o amavam e o admiravam. Não podia, a nenhum instante, sob qualquer argumento, e a qualquer preço, decepciona-los.

O capitão compreendeu o vexame que causou, mais uma vez, e dirigiu-se a Mário, pedindo novamente desculpas.

-- Está bem, capitão. Como o senhor ficou sabendo pela boca do próprio chefe, meu povo agora é este! E eu me sinto muito bem com eles. Pode vir à noite para comemorarmos, juntos, esse reencontro. Mas no dia seguinte, ao partir, só gostaria de ter sua palavra de que não insistirá para que eu me vá, na frente do chefe Itaraê. Eu não conseguiria desagradá-lo, pois além de meu sogro, sempre me acolheu e me respeitou aqui como seu filho.

Capitulo 09


A noite caiu. Os preparativos para o caxiri foram feitos pelas mulheres. Os homens chegam da caça e trazem três antas. Logo após, a aldeia estava em festa.

-- Itaraê feliz porque o capitão aceitou convite para festa.

-- Eu não poderia negar tão gentil convite, chefe. Esta vai ser uma grande oportunidade para revermos, eu e Mário, os bons momentos de nossa terra e nossa gente.

-- Por falar nisso, quais são as novidades que o nobre Capitão me trás de Castela? – interrompeu Mário, bastante curioso.

-- Ah, amigo Mário, estamos na fase das grandes navegações. Tanto em Castela, Aragão, como na Galicia, o movimento de entrada e saída dos navios é grande. Depois que Fernão de Magalhães descobriu o caminho marítimo paa as Índias, o temor pelo desconhecido mar tenebroso desapareceu. Hoje já não sabemos quantas naus por mês singram o Grande Mar Atlântico, em busca de especiarias. Realmente, o mapa do mundo agora é outro. Colombo, por exemplo, tenta provar que a terra é redonda... e esta descoberta muda o cenário das navegações – falou Diaz.

-- Se agora eu retomasse Castela, certamente eu não reconheceria nem mesmo minha família. São vinte anos e muitas milhas que me separam de minha terra. Até há alguns anos atrás, eu choraria muito, com muita saudade de minhas irmãs e meus velhos. Mas o contato com este povo me fez pensar diferente. Agora a saudade já não dói tanto. Isso não quer dizer que meus pais e irmãs se tornaram menos importantes, mas meu destino foi submetido à limalha do tempo; me tomaram uma família e me presentearam outra. Meus filhos e minha Nira me preenchem agora a vida, e já não sinto mais aquela tristeza tão grande. Este povo me presenteou com sua língua e sua cultura; e eu lhes ensinei um pouco de nossa religião.

-- Mário homem bom. – interrompeu o cacique. – antes de Mário, só meu pai conheceu outro homem branco, mas este homem, também da mesma língua de Mário, enganou meu pai e botou água de branco em minha irmã. Ele encheu a barriga da cunha com líquido de homem branco, mas o curumim nasceu morto, por ordem de Iratu. Aldeia não a aceitou mais a mãe do curumim, porque ela abandonou as leis de Jurupari. Minha irmã, assim, subiu no morro, e se jogou pela depressão da montanha. Cabeça bateu na pedra, pedra quebrou cabeça... sangue escorreu. Até hoje, no meu coração, eu sinto a ira do homem branco. Veio Mário do grande rio, e feiticeiro salvou Mario dos jacarés. Mário colocou água de branco nas entranhas da minha filha, mas não abandonou povo meu, assumindo, como verdadeiro guerreiro, a posse da minha Niranaê e tomando-a como sua esposa. Assim, dei a Mário a minha filha, parte importante de minha vida, que já estava consagrada aos deuses da floresta. Virgem, Niranaê ia ser sacerdotiza e mulher de Iratu. Mas Jurupari lançou praga e Mário se deitou com Nira, quebrando promessa. Iratu, porém, vendo sinceridade nos olhos do homem branco, revelou ao grande feiticeiro Itanhaê destino da tribo, e novo traçado no futuro. Assim, eu aceitei Mário como genro meu e filho dos meus netos, pois os nossos deuses já o haviam convocado para liderar, no futuro, nossa nação.

Após um breve silêncio, um dos imediatos de Diaz, de nome Ramon, ousou perguntar para o cacique:

-- O senhor acredita que Mário será grande chefe de tudo isso, no futuro?

O velho cacique ficou aborrecido com a pergunta interesseira do homem de Diaz, e respondeu, bruscamente:

-- Homem branco deve ficar calado, pois eu aind anão terminei fala.

Mário, entendendo a posição de seu sogro, pediu para o capitão Diaz que fizesse um sinal aos seus auxiliares, para que não interrompessem o cacique. Ao sinal de Diaz, Ramón silenciou e Itaraê continuou seu relato:

-- Existe profecia tucuju, que um dia os homens do Norte irão tomar terra dos índios. Quando vocês chegaram, pensei que era chegado o dia. Quando Mário chegou aqui, pensei que Mário seria o dominador. Mas a confusão já está desaparecendo, e agora estamos diante de pessoas amigas. Nossos guerreiros são desconfiados por natureza... mas nossos guerreiros conhecem também quando pessoa não fala sério. Por muitos e muitos tempos estamos inquietos, pois a cada lua que passa, chegam pessoas diferentes a estas paragens. Tenho muito medo. Meu povo tem muito medo. Meu avô e meu pai me ensinaram a não acreditar na língua de branco. Branco traz doença, traz saudade, traz morte... traz água proibida e embriaga nossa gente. É porisso que quando qualquer branco aparece, índio reage com branco, armado de arco, flecha, borduna e tacape. Mas agora sei que capitão Diaz é amigo; e capitão tem o comando de seus homens. Chefe tem que ser assim. Por isso eu e capitão nos entendemos.

No mesmo instante o oficial espanhol, ao consentimento de Mário, se aproximou do cacique e o abraçou. Não entendendo muito, desta vez Itaraê deixou ele se aproximar. Em seguida, todos os marinheiros cantaram uma canção folclórica da região da Galícia, o que deixou Mário muito emotivo. Começou a chorar, mas depois se refez, sorrindo para todos.

Do lado tucuju o caxiri foi servido. Do lado dos europeus, três barris de rum foram colocados à disposição. Todos se embriagaram. A tripulação das naus também comemorava. As cunhas novas serviam as bebidas, “supervisionadas” pelas mais velhas. Todos estavam embriagados. Por ordem de Itanhaê, as mulheres – à exceção de Niranaê - passaram a agradar e a ‘servir’ aos estrangeiros.

O caxiri, o beiju, o pão e o rum, misturados àquelas gentes, davam um tom de amizade e colorido. Todos cantavam. Todos dançavam. Silvícolas e castelhanos, índios e europeus... todos participavam da festa que varou a madrugada.

Os oficiais de Diaz começaram a ensinar dança castela, e as índias, com algumas tintas à base de jenipapo e urucum, começaram a pintar alguns oficiais. Não eram mulheres bonitas, sob o ponto de vista dos padrões estéticos da beleza européia, mas eram mulheres puras, naturais, sem maquiagem e sem malade... jovens, nuas, cuja perversidade do homem branco ainda não estava ali a dominar. Diaz era muito religioso. Católico por convicção a serviço “dos reis das Espanhas”, ele sempre trazia consigo alguns jesuítas, e dirigia sua nau de acordo com os preceitos da Igreja Católica.

As danças, os batuques, o caxiri, tudo isso era contagiante. Diaz ainda não tinha visto coisa igual. O escrivão da frota começou a anotar tudo isso, para encaminhar a seus reis. Jurupari, ao longe, jamais iria interromper esta festividade, que tinha a proteção de Iratu.

Finalmente chegou a hora, e os europeus se despediram para dormir. As mulheres tucuju se despediram deles, e foram para suas aldeias. O silêncio voltou, e o reino do sono começou a aparecer. Todos agora dormiam, satisfeitos por uma confraternização rara, naquelas terras tucujus. A noite já estava varando pelas entrelinhas da madrugada, e deva vazão ao dia. Coaraci já estava com vontade de aparecer.

Finalmente fez-se manhã. As naus já retesavam as velas, rumo às regiões desconhecidas. Mário ficou observando de longe as chances, talvez a última, de poder rever sua terra querida, no regresso da nau a Castela. Niranaê entendeu, ficou calada, muda por uns instantes. Também a índia estava com alegria interior, ao perceber que Mário resolveu permanecer entre eles por sua própria vontade; e isso demonstrava, sem dúvida, o amor devotado a ela e a seus filhos. As cunhas da nação tucuju nutriam, em seu interior, um pouco de inveja. Um amor assim, acima dos limites da legislação de Jurupari, solidificado e amalgamado pela sinceridade e inocência dessa coração tucuju: eis o motivo.

Luzia chorou de emoção. Seus nove anos já eram suficientes para perceber que o pai iria permanecer com eles, por amor à família. Amália sabe que sua irmã é mimada. Pega-a pelo braço, e juntas vão brincar no areial da praia de água doce. Doces crianças. Longe, Niranaê e Mário já não avistavam mais as naus, que desapareciam no horizonte. No rio, as ondas estavam a cantar, e as águas a correr.

Capitulo 10


-- Caça boa! Iratu aceita caça queimando no fogo. Itaraê pede para Iratu aceitar – palavras de Itaraê, que agora está com 82 anos. A colheita tinha sido boa. Alegria está implantada no olhar do guerreiro tucuju. Ele ainda teme invasão do branco no norte d no sul. Mas as forças da natureza estão, ainda, a seu favor.

Jacareí é o quarto filho de Mário e Niranaê. Já tem nove anos. Nutre pelo ave estima imensa; mas de vez em quando apronta uma traquinagem para o pai. Coisa de curumim.

Quatro anos se passaram, depois da visita do capitão Diaz de Sólis. Niranaê está cuidado do beijo para a manhã seguinte. Ouve-se, ao longe, um ruído: é o jaguaretê que está por perto. A índia, não querendo acordar o marido que está cansado, mune-se de tacape e koiré, e vai sozinha. Grito de seu irmão, de “acói-cói” (perigo) se ouve ao longe, mas não há tempo. Um tronco de palmeira pesada cai em cima da perna direita de Niranaê. Há sangramento. O cheiro do sangue atrai a jaguaretê que se aproxima.

A fera vem chegando, e Nira, com uma dor terrível no membro, fica calada. Não pode se mexer, pois o pau pesado está sobre sua perna quebrada. A onça chega perto. A flecha de Caubi, seu irmão, porém, é mais rápida e certeira. Sangue vem jorrando do coração do jaguaretê, e a fera se arrasta alguns palmos mas cai, sem vida. Mário está à procura da mulher.

-- Nira! Niiiraaaaa!

-- Mário, mulher tua aqui. Perna quebrada. Jaguaretê morta. – A índia começa a gritar de dor. Ruído é profundo na mata:

-- Marido, perna dói... dói muito. Sangra dor e sangue.

Mário, mais apreensivo ainda, tenta consola-la após agradecer ao cunhado.

-- Mulher, a troco de quê você não me chamou para te acompanhar. Por que agiu sozinha?

-- Eu não queria acordar você, meu marido. Estava só, acordada. Ouvi barulho na mata. Pensava ser filho de mapinguari.

-- Ô mulher. Você não pode fazer as coisas sozinha. Sei que não me chamou por amor, mas a vida é mais importante que o amor.

-- Meu amor por você é mais importante que a minha vida! – acrescentou logo a índia, e fazendo uma cara feia para que Mário não dissesse mais nada. Nesse instante chega o “médico da aldeia”. O velho Itanhaê, amparado por duas cunhatãs, observava a perna da índia.

-- Que acha, ‘pai’ Itanhaê? – pergunta, apreensivo, Mário.

-- Ferida muito feia, mas Niranaê não vai morrer.

-- Ela vai ficar boa então? Oh! Graças a Deus!

-- Sim. Sua mulher não vai ficar doente, mas vai perder a perna!

A tristeza passou a dominar a aldeia tucuju. Mário acariciava sua esposa. Melancolia residia em seu rosto. Niranaê perderia a perna, mas a vida continua. O olhar da índia já estampava sorriso, talvez para confortar o marido apreensivo. Foi o sorriso da índia de 73 anos, na contagem do homem branco, que fez mudar a musculatura facial do galego.

Após tombar bastante carixi e outras ervas aromáticas, a índia suportou a dor atroz. Aliás, os ossos já estavam separados, provocados pelo peso do tronco que caiu em cima de sua perna. O feiticeiro só fez – com o auxilio da faca de maçaranduba afiada – cortar a parte da pele que ligava os ossos. A ferida ficou exposta, mas o feiticeiro diariamente banhava-a e trocava as ervas curativas e cicatrizantes cujo segredo ele só conhecia. Niranaê varou noites e noites urrando, de vez em quando, de dor, mas Itanhaê teve toda a paciência do mundo, para curá-la. E, de fato, ela ficou curada.

Passaram-se quatro luas depois que aconteceu o acidente com Niranaê. A guariba parou de cantar de repente. Jurupari, em forma de porco-do-mato, espreitava o quadro. Ele queria vingança, mas o destino mudou sua trajetória. Niranaê tinha, de fato, uma perna a menos, mas continuava a viver. A índia não foi a virgem prometida a Coaracy, e Coaracy, por isso mesmo, não perdoava a artimanha do galego. Daqui há pouco Jacy vai sumir, e Coaracy novamente fará Aracê. O castigo dos seres da floresta será eterno? Jacy não pode beijar seu amado Coaracy, e o sol tem, na lua, amor impossível. Esse dilema sempre foi cantado na história do povo tucuju. É a saga dos seres. É a predestinação dos elementais da florestas.

A coruja começa a piar. Silêncio se faz. Floresta começa a dar o ultimo ressono, frente aos lampejos do Sol, que aos poucos começa a fazer a floresta despertar para mais um dia na grande nação tucuju.

Capitulo 11

O assobio dos pequenos animais das matas, e os gritos das enormes guaribas denunciavam ali a presença de um elemento estranho. Amália começou a ficar apavorada, pois seu pai lhe recomendara ficar alerta com a presença de qualquer desconhecido. Mesmo assim, banhava-se tranquilamente na corredeira principal do igarapé. Seu corpo bonito, pele limpa, brilhando ao sol. Seus seios bem formosos... já começavam a mostrar uns mamilos perfeitos, que rosados, pareciam dois polens de papoulas, tal a beleza exótica da filha do galego, de 16 anos bem juvenis.

Amália tomava banho sozinha, mas começou a sentir que estava sendo observada por alguém. Pressentia o perigo, mas continuava, com serenidade, com o sorriso inocente. Podia ser seu irmão Hernan, que sempre a defendeu dos perigos. Mas não podia também. Se fosse ele – pensou – não estaria assim tão silente e quieto. Não! Algo lhe dizia que tinha alguém desconhecido por ali. Continuou seu banho, apesar de tudo.

Um estrangeiro, ao longe, estava à espreita da jovem encantadora. Era agradável o aroma juvenil daquela adolescente para a floresta, mas para ele, em especial, era cheiro de sexo.

-- Quem é você? – perguntou Amália, inocentemente, ao estrangeiro bonito que se aproximava.

-- Você fala espanhol, mocinha? Quem lhe ensinou? – a surpresa do estrangeiro foi tamanha.

-- Sou tucuju. Meu nome é Amália, filha de Mário e Niranaê.

O jovem castelhano ficou vislumbrado com a beleza e a desenvoltura daquela mestiça, e quis saber mais detalhes:

-- Quem te ensinou castelhano?
-- Meu pai é da Galícia, e por isso mesmo, fala castelhano. Minha mãe é tucuju. Falo língua de meu pai porque ele me ensinou e ensinou minha mãe e meu avô.

O jovem ficou mais espantado ainda. A mestiça, acostumada a despir-s na frente de seus irmãos e pais, não via malícia alguma em ficar frente-a-frente com o europeu. Ainda lhe fez até uma observação.

-- Por que você está todo cheio de roupa?

O jovem aproveitou a “deixa”, e fez um pedido estranho e malicioso.

-- Posso tirar minha roupa? Quer que eu a tire?

Com naturalidade, Amália respondeu:

-- Por mim tanto faz. Meus pais e irmãos andam com pouca roupa. Às vezes tomamos banho juntos, sem roupa.

-- Vou tirar toda a roupa. Posso tomar banho com você?

A inocência e naturalidade de Amália, novamente assentiu ao pedigo do rapas.

-- Pode sim. Venha. Vamos tomar banho juntos.

O estrangeiro não pensou duas vezes. Tirou todo seu roupão e começou a entrar na água. A índia tucuju viu algo diferente a inflamar no corpo do estrangeiro. Não conseguiu entender. Na sua inocência chegou mesmo a perguntar o motivo de tanta animação. Por que “aquilo” no meio do corpo do estangeiro estava tão rígido? Por que esse prazer e esse fogo, entre suas pernas? Seu pai e sua mãe nunca lhe haviam falado nisso. Mas o castelhano não estava disposto a dar-lhe explicações e, à medida em que se aproximava, ela sentia a “coisa estranha”. Nunca nenhuma rapaz da aldeia havia olhado para ela assim. Nunca ninguém a tocou desse jeito: primeiro ele pegou sua mão, abraçou seu corpo, roçou “aquilo” nela. Algo, agora, com quentura de fogo e gosto apreciável estava tentando encontrar caminho em seu corpo. Amália não conseguia entender o estranho movimento daquele corpo tão branco, nem por que os lábios do homem desesperadamente “chupavam” esquisitamente os mamilos de seus seios. Queria ir embora de repente, mas sua fragilidade e inexperiência eram demais, diante da musculatura e da força do europeu que,com hábitos estranhos, estava retendo-a, imobilizando-a, penetrando-a, prendendo-a num vai-e-vem gostoso... gostoso de fazer.

Amália não sabia o que dizer, mas começou a mergulhar nesse oceano imenso da loucura. Não sabia o que lhe estava acontecendo, mas era gostoso demais. Como era! Passaram-se rapidamente os minutos; e depois, percebeu a mestiça que o estrangeiro parou, sem forças, aliviado. Ela também sentiu estranho alívio de experiência tão diferente. Tudo ia bem, se ela não notasse um fluxo vermelho de sangue correndo entre suas pernas. Ficou tão desesperada a menina, que começou a perguntar para o estrangeiro:

-- Você me furou? Olhe... você me furou. Você me furou com o que? Com “isso”?

O estrangeiro ficou pasmo, sem responder alguma coisa. Amália insistiu, mas ele continuava em silêncio.

-- Fale, homem! Que você fez em mim? Por que estou sangrando? Fale! Fale antes que eu chame meu pai.

-- Calma, menina... não precisa ficar zangada! Não foi nada. Você não gostou?

-- Não foi nada o quê, seu desgraçado! E o que é esse sangue que está saindo? Me explica, por Iratu! Me explica por que sai sangue de mim!

O estrangeiro acabara de deflorar a mestiça. Explicações não adiantavam. Tratou logo de fugir, para nunca mais voltar.

Amália ficou confusa. Contaria ao pai? Contaria à mãe? Contaria aos dois? Isso adiantaria? E se fosse coisa grave? E as suas colegas de aldeia, que diriam? Sua cabeça começou a desfilar num mundo imenso de confusões. Não convinha se desesperar, pois seu “tio-avô” Itanhaê lhe havia ensinado que tucuju não podia entrar em pânico, em circunstância alguma.

A mestiça ficou pensativa por muito tempo. Enfim, chegou a uma conclusão: nada revelaria a ninguém, afinal de contas estava viva! Mais tarde ela entenderia o porquê daquilo tudo.

Já estava ficando tarde. A mestiça de 16 anos tratou logo de limpar o sangue entre as pernas, e vestir a tanguinha que Niranaê lhe havia feito. Ao chegar, se a mãe lhe perguntasse alguma coisa, diria que era a menstruação que havia chegado. Paciência!

Capítulo 12

Os vinte anos de Hernan foram, para Mário, muito significativos. Filho mais velho, era a copia perfeita do antes jovem Mario. Puxa! Ele fica a imaginar que vinte longos anos se passaram, desde que chegou a estas terras. Salvo pelo velho Itanhaê, a quem agora chama de pai, conhecera Nira, e hoje está com cinco filhos e tão jovem ainda. Hernan é o primogênito. O casamento com sua prima Surini se aproxima, e falta apenas uma lua para tal.

Surini é um encanto de menina. Jovem ainda, conhecera Hernan nas quebradas da cachoeira, em tempos de criança. Cresceram juntos, enfrentaram algumas pororocas e, juntos, prometeram, num jogo de amor, a serem fiéis um para o outro. Agora, após dezenas e dezenas de lutas, eles estão prontos para experimentar um ano de trabalhos árduos pela frente, pois é costume que, após o casamento, o noivo vá trabalhar doze luas (um ano, na contagem do homem branco) de graça na casa dos pais da noiva, e a noiva fique reclusa na taba, com os pais do noivo; e lá, com a futura sogra, passa a aprender todas as experiências que uma futura mãe deve experimentar, desde os cuidados de parto até o crescimento da criança. Na aldeia não existe índia parteira. Todo o serviço é executado pela própria índia que vai ser mãe. Isto faz parte do código de Iratu.

Em seus sonhos, Surini também desejou pertencer a Hernan, que tinha por ela predileção imensa. É claro que as brigas eram freqüentes, mas tudo isso serviu para refrear os abusos que os dois cometiam.

-- Surini, você já foi falar com pai Mário a respeito da dança?

-- Já, querido – respondeu a moça. Esse tom carinhoso de falar deixou Hernan um pouco preocupado. Ele pressentiu que a índia ficou também pensativa, ao que interrogou.

-- Que tens, filha de Deus? Por que este tratamento tão carinhoso? Você nunca foi tão carinhosa assim comigo?

-- Nada, Hernan. Desculpe-me. Me escapuliu.

-- Algum motivo particular que seu novo não possa saber, querida princesa?

-- Oh, não! Não se trata disso! Não tenho segredos com meu futuro marido.

-- Então, minha “flor-do-campo”, conta pro teu amor o que está te atormentando! Talvez eu possa te ajudar.

-- Oh, não penses coisa ruim. Está tudo bem comigo. Apenas estou preocupada com Amália. Ela contou-me algo muito grave.

-- Então por que não contas a mim? Eu sou o irmão mais velho dela! O que a mana tem? – Hernan começou a ficar preocupado... – Anda, Surini. O que tem a mana?

-- Hernan, com você exaltado desse jeito, é claro que não vou contar.

-- Então vou perguntar a ela...

-- Você não vai! – interrompeu, bruscamente, Surini. – Ela me contou um segredo, e com certeza ela vai saber que eu revelei a você.

-- Eu vou...

-- Não vai, já disse!

-- Por que não? Quem manda em mim sou eu, e faço o que eu quero da minha vida e das minhas decisões...

-- Ah, seu cabeça-ôca. Se você der mais um passo sem me escutar antes, juro por Ifatu que não vou ser mais sua cunha.

Pela expressão de Surini, Hernan percebeu que a situação era grave. Percebeu também que Surini não brincava. Quando prometia fazer alguma coisa, podia contar que aquilo se tornava lei.

-- Está bem, Surini. Vou te ouvir. Mas, pelo nosso amor e pelo amor de minha irmã, diga-me logo o que está se passando com Amália, senão eu vou enlouquecer...

-- Assim está melhor. Mas antes de eu te revelar alguma coisa, prometa que vai entender a sua irmã.

-- Prometo, minha jóia rara. Prometo, mas me conta logo!

-- Tens de prometer por Iratu.

-- Prometo por Tupã, por Iratu, Jurupari... prometo por Jesus Cristo... pelo nosso amor... que vou entender Amália. Mas conta, mulher, pelo amor de Deus o que está acontecendo com minha irmã.

E numa expiração só, Surini falou:

-- Amália está grávida!







*** *** ***
*** ***
***

Foram necessárias muitas luas, para que todos entendessem o sofrimento de Amália. Mário já havia se conformado. Niranaê já esperava, com todo amor, o neto que nasceria a qualquer momento. Surini conseguiu acalmar os ânimos de Hernan, que por alguns dias andou investigando sobre possíveis estrangeiros espanhóis que estavam a se espalhar em feitorias e fortificações, por toda a Província. Nada conseguiu. Já aceitava a idéia de ter um sobrinho de seu pai desconhecido. Afinal, parte dele é sangue de sua irmã querida. Estavam todos pensativos. De repente, no fundo do tapiri que Mário havia preparado, ouviu-se a voz diferente de criança. Uma índia velha começou a gritar:

-- É curumim novo! É menino novo! E é de Amália.

Todos ouviram os gritinhos inocentes do bebê, e se dirigiram ao local. Amália estava lá. A doce Amália, de 17 anos apenas, e orgulho do pai, havia concebido um curuminzinho tão branquinho e de olhos azuis. Não precisa dizer que a alegria foi geral.

Algumas luas depois do resguardo de Amália, Moisés já tinha seus dois dentinhos. Oh, desculpem. O nome dele é Moisés. A mamãe não o largava um instante sequer. Também o tiozinho Aracém, mano da mãe, com seus nove anos, tinha um bebê de nome Moisés.

O nome foi dado pelo avô Mário. Nome hebraico, significa “Salvo das águas”. Afinal, Moisés foi concebido num igarapé, e foi fruto de um ano de sedução. Mas hoje são “águas passadas”.

Para tornar o acontecimento mais bonito, resolveram Hernan e Surini se unir, pois era momento propício. Foram três dias e três noites de festas. Torna-se necessário dizer que o caxiri foi bastante? Batuque, cânticos, tudo isso marcou os dois eventos.

Após o terceiro dia, Sur5ini, de acordo com o costume, foi se recolher à casa de sua sogra. Hernan, com seu sogro, foi aprender melhor a vida de um guerreiro adulto. Aliás, o rapaz aceitava tanto os ensinamentos cristãos do pai, como também os da aldeia, sem choques culturais.

Manhã seguinte, Aracém com seus nove aninhos resolve se distanciar um pouco. Ao longe escuta vozes e rumores distantes. Sente aquilo estranho e procura imediatamente o pai para contar o acontecido.

Mário ouve o filho e resolve investigar o local indicado por ele. De fato, os rumores e vozes estranhas foram de uma expedição espanhola que por ali passava. Será que os navegantes perceberam a presença do menino e seu pai? A dúvida começa a surgir, mas para esse acontecimento, é melhor ficar na dúvida do que se entregar ao inimigo, pois havia rumores de que corsários oriundos da Galicia estavam escravizando índios para venderem na Europa como mão-de-obra, ou para trabalharem nos trabalhos de extração do caracuri (ouro) e na coleta do pau-Brasil.

Isso prenunciou um alerta. Se torna necessário um pouco de cuidado, a partir de agora, para que seu povo e sua família não sejam moelstados pelo ardil do inimigo. Parece que a partir de agora advirão novos tempos. Finda-se o ano de 1525 da era cristã, na contagem do homem branco.